A.V.C.: Acidente Vascular Cerebral

“O seu avô teve um AVC.”

Receber a notícia de que um dos nossos familiares mais queridos sofreu um AVC é desolador, mesmo quando não se sabe exatamente do que se trata em termos fisiológicos. Ouvir falar em AVC implica, quase sempre, a associação ao risco de vida, a limitações na qualidade de vida do doente e na dinâmica da família. Mas será mesmo assim?

 

O AVC – o que é?

Tal como todos os órgãos, o cérebro necessita de um fluxo constante de sangue, para funcionar adequadamente. Quando este fluxo é interrompido ou restrito, as células cerebrais morrem, o que pode originar uma lesão cerebral com consequente incapacidade (p. ex. incapacidade para mexer um braço, uma perna, para falar, para organizar o pensamento) ou a morte.

Existem duas causas principais para os AVC’s:

  • isquemia, isto é, a irrigação sanguínea é suprimida devido a um coágulo ou uma placa de gordura que se solta de outra parte do corpo e é transportada até ao cérebro, bloqueando a passagem do sangue (85% dos casos). Neste caso os AVC’s denominam-se acidentes vasculares isquémicos. Existe ainda um outro tipo de AVC, denominado acidente isquémico transitório (AIT), no qual a interrupção do fluxo sanguíneo é temporária e as suas manifestações breves. Um AIT é, habitualmente, é um sinal de alerta para o risco de um AVC e deve ser procurada ajuda médica com urgência.
  • hemorragia, quando um vaso sanguíneo se rompe, causando um derrame no cérebro. A hemorragia pode ocorrer dentro do cérebro (intracerebral) ou entre o cérebro e o crânio (hemorragia subaracnoideia). AVC’s deste tipo denominam-se acidentes vasculares hemorrágicos.

 

Porque é que um AVC pode alterar funções, por exemplo, como a fala, a marcha, a deglutição ou a capacidade cognitiva?

O cérebro funciona organizado em áreas, ou seja, existem determinados grupos de células que são responsáveis por uma ou mais funções. Imagine que o cérebro é uma grande empresa, com vários departamentos que trabalham em conjunto. Existem, por exemplo, áreas específicas para andar, falar, engolir, mexer a mão, movimentar os lábios para dar um beijo, sentir a temperatura ou o toque… Tudo o que fazemos é controlado por áreas específicas do nosso cérebro, ou seja, por cada departamento da “empresa”.

Depois de um AVC, uma ou mais áreas cerebrais ficam lesadas e, de acordo com o tipo e localização da lesão, poderemos ter uma ou várias funções alteradas. A pessoa pode ficar com dificuldade na marcha, em manter o equilíbrio, em movimentar o braço, etc. Outras alterações podem incluir a incapacidade para comer ou beber (disfagia)dificuldades em comunicar.

 

Se existiu morte de células do cérebro, a pessoa pode recuperar funções?

Até há algumas décadas atrás, a mortalidade associada ao AVC era muito elevada e, quando a pessoa sobrevivia, não existia praticamente qualquer investimento na reabilitação das funções perdidas.

Alguns casos, contudo, demonstraram a possibilidade de recuperação das funções, o que deu azo ao desenvolvimento de estudos relacionados com a reabilitação de pessoas com AVC. Descobriu-se o conceito de plasticidade cerebral e aprofundou-se o conceito de aprendizagem motora, que se tornaram os motes para o desenvolvimento das várias terapias de reabilitação.

A plasticidade cerebral, também denominada de neuroplasticidade, refere-se à capacidade de o cérebro se adaptar a mudanças, como resultado da experiência. Isto é, a capacidade de o cérebro alterar as suas conexões e até mesmo a localização das suas funções. Em última análise, esta capacidade é a que permite a recuperação das funções perdidas, através do treino de reabilitação (Hara, 2015; Sasmita, Kuruvilla, & Ling, 2018). Voltando à analogia da empresa, imagine que um incêndio elimina um dos departamentos da empresa (AVC). Os funcionários dos restantes departamentos assumirão as funções do departamento perdido, tal como outras áreas do cérebro podem reaprender as funções das áreas lesadas pelo AVC, e assim, recuperar capacidades perdidas.

 

Como é que se podem recuperar essas funções?

Em 2015, o Instituto Nacional de Estatística registava que 10,8% das mortes em Portugal se deviam a Acidentes Vasculares Cerebrais («Portal do Instituto Nacional de Estatística», 2015), ainda que esse valor representasse uma diminuição de cerca de 40% comparativamente a 2011.

A diminuição da mortalidade associada ao AVC, e consequente sobrevida, implicou que a comunidade científica de saúde identificasse a necessidade de criar respostas de reabilitação às vítimas de AVC e aos seus familiares, verificando-se um aumento no número de estudos e técnicas de reabilitação com resultados comprovados cientificamente.

Na verdade, as guidelines internacionais (Furie & Jayaraman, 2018; NICE, 2019; Powers William J. et al., 2018) passaram a incluir, para além da abordagem médica tradicional (medicamentosa), a igualmente importante abordagem terapêutica, que inclui as várias terapias de reabilitação – fisioterapia, terapia da fala, terapia ocupacional e psicologia. Através delas, a (re)aprendizagem e recuperação das funções perdidas é possível.

 

Saiba mais sobre:

Alterações da comunicação depois do AVC

Outras alterações que podem interferir na comunicação da pessoa com AVC

Dificuldade em engolir depois do AVC

Reabilitação da fala

Reabilitação da linguagem

Reabilitação da deglutição

 

 

Referências

Furie, K. L., & Jayaraman, M. V. (2018). 2018 Guidelines for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke. Stroke, 49(3), 509–510. https://doi.org/10.1161/STROKEAHA.118.020176

Hara, Y. (2015). Brain plasticity and rehabilitation in stroke patients. Journal of Nippon Medical School = Nippon Ika Daigaku Zasshi, 82(1), 4–13. https://doi.org/10.1272/jnms.82.4

INE. (2015). Portal do Instituto Nacional de Estatística. Obtido 15 de Janeiro de 2019, de https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_destaques&DESTAQUESdest_boui=281117178&DESTAQUEStema=5414284&DESTAQUESmodo=2&xlang=pt

Powers William J., Rabinstein Alejandro A., Ackerson Teri, Adeoye Opeolu M., Bambakidis Nicholas C., Becker Kyra, … Tirschwell David L. (2018). 2018 Guidelines for the Early Management of Patients With Acute Ischemic Stroke: A Guideline for Healthcare Professionals From the American Heart Association/American Stroke Association. Stroke, 49(3), e46–e99. https://doi.org/10.1161/STR.0000000000000158

Sasmita, A. O., Kuruvilla, J., & Ling, A. P. K. (2018). Harnessing neuroplasticity: modern approaches and clinical future. International Journal of Neuroscience, 128(11), 1061–1077. https://doi.org/10.1080/00207454.2018.1466781

NICE. (2019). Stroke rehabilitation: therapy – NICE Pathways. Obtido 15 de Janeiro de 2019, de https://pathways.nice.org.uk/pathways/stroke/stroke-rehabilitation-therapy#content=view-node:nodes-communication

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