DIFICULDADE EM ENGOLIR NO TCE

 

A disfagia orofaríngea é uma alteração da deglutição, comum em pessoas com patologias neurológicas, como o traumatismo cranioencefálico.

Leia mais aqui sobre o que é a disfagia, antes de avançar (importante!).

A presença de disfagia, embora não seja regra no TCE, é frequente e, quando não diagnosticada e tratada atempadamente, pode ter implicações na estabilidade clínica e reabilitação da pessoa.

A sua gravidade é variável e dependente da lesão em questão.

 

Observou-se que, de uma forma geral, as pessoas com TCE apresentam alterações da deglutição semelhantes às pessoas que sofreram um AVC, sendo as mais comuns1:

  • Aspiração ou penetração pulmonar (73,2%);
  • Diminuição da elevação laríngea (68,3%);
  • Inversão epiglótica reduzida (61%).

 

Cada pessoa recupera, contudo, de forma diferente e, se alguns doentes melhoram rapidamente, outros podem precisar de uma intervenção de longa duração e de optar por vias alternativas de alimentação.

 

Vias alternativas de alimentação – que opções?

Vias alternativas de alimentação são vias que visam complementar, ou em casos graves, substituir, a alimentação por via oral (pela boca). Se a pessoa não conseguir mastigar ou engolir propriamente, ou em quantidade suficiente, para se manter hidratada, nutrida e medicada, a equipa pode recomendar a utilização de uma via alternativa.

Em Portugal, as duas vias alternativas mais comuns são a sonda nasogástrica e a gastrostomia endoscópica percutânea (PEG)2.

A PEG é colocada quando se prevê uma disfagia persistente no tempo, e a sonda nasogástrica utilizada em períodos de tempo menores, uma vez que é pouco tolerada, potencia o refluxo gastroesofágico, pneumonias de aspiração e, quando usada durante mais do que seis semanas, pode causar lesões nasais e sinusite crónica3,4.

A determinação atempada do prognóstico de reabilitação da função de deglutição é, portanto, necessária para decidir quais as pessoas com TCE e disfagia que devem ser alimentadas por PEG.

Num ambiente agudo (hospitalar), esta avaliação é desafiante, mas fatores como a idade, pontuação na escala Rancho los Amigos, presença ou ausência de traqueostomia e presença ou ausência de afonia inicial, parecem ser fatores preditivos da necessidade, ou não, da colocação de PEG2. O compromisso da alimentação por via oral pode ser predito através da pontuação na escala Rancho los Amigos, dos resultados imagiológicos, da duração do período de ventilação e presença de aspiração.

 

Como é feita a reabilitação da deglutição?

 

Para além da reabilitação da comunicação, quando esta está alterada, o terapeuta da fala pode também dirigir parte do período de intervenção para a deglutição.

Depois de uma avaliação criteriosa por parte do terapeuta da fala, que preferencialmente deve incluir um exame instrumental da deglutição, é iniciado o plano de tratamento na reabilitação da deglutição, que pode incluir:

  • Observação/acompanhamento de refeições5;
  • Estimulação ou dessensibilização oral5;
  • Ensino e treino de higiene oral5;
  • Estratégias, exercícios e manobras de deglutição5;
  • Exercícios de fortalecimento das estruturas da deglutição5;
  • Treino de alimentação (utilização de alimentos e bebidas durante os exercícios)5;
  • Aconselhamento e treino dos familiares ou cuidadores – adaptação dos alimentos e bebidas, formato de apoio à alimentação, entre outros.

A duração da intervenção é, naturalmente, variável, tal como a duração de cada sessão. Pessoas que apresentem, por exemplo, alterações cognitivas e/ou comportamentais, poderão beneficiar de sessões mais curtas numa fase inicial, adaptando-se o ritmo e duração da intervenção de acordo com a capacidade de cada pessoa.

É importante ressalvar que, mesmo quando se trata de uma lesão grave, com consequências em múltiplas áreas, garantir uma nutrição, hidratação e capacidade de toma da medicação adequadas potencia a reabilitação de  global. A capacidade de deglutição deve, portanto, ser uma das primeiras áreas a ser avaliada e reabilitada quando existe disfagia.

 

Rita Loureiro, terapeuta da fala

NEUROFALA | terapia da fala no adulto com patologia neurológica

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Saiba mais:

O que deve saber sobre a reabilitação da fala e comunicação no TCE?

Referências
  1. Lee, W. K. et al. Characteristics of Dysphagia in Severe Traumatic Brain Injury Patients: A Comparison With Stroke Patients. Ann. Rehabil. Med. 40, 432–439 (2016).
  2. Mandaville, A., Ray, A., Robertson, H., Foster, C. & Jesser, C. A retrospective review of swallow dysfunction in patients with severe traumatic brain injury. Dysphagia 29, 310–318 (2014).
  3. Veis, S. L. & Logemann, J. A. Swallowing disorders in persons with cerebrovascular accident. Arch. Phys. Med. Rehabil. 66, 372–375 (1985).
  4. Gomes, C. A. R. et al. Percutaneous endoscopic gastrostomy versus nasogastric tube feeding for adults with swallowing disturbances. Cochrane Database Syst. Rev. CD008096 (2015). doi:10.1002/14651858.CD008096.pub4
  5. Beaulieu, C. L. et al. Occupational, Physical, and Speech Therapy Treatment Activities during Inpatient Rehabilitation for Traumatic Brain Injury. Arch. Phys. Med. Rehabil. 96, S222-S234.e17 (2015).

 

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