Esclerose múltipla: também altera a deglutição?

Antes de ler mais sobre a disfagia na Esclerose Múltipla, aconselhamo-lo a familiarizar-se com informação básica sobre a deglutição e disfagia, que o ajudará a compreender como funciona a deglutição, quais os riscos da disfagia e quais os sinais e sintomas a que deve ficar atento.

Súmula de complicações que podem advir da disfagia:

  • Desidratação –> Secreções espessas–> Dificuldades respiratória1,2;
  • Malnutrição –> fadiga –> Dificuldade em realizar as atividades da vida diária1,2;
  • Aspiração pulmonar –> infeções respiratórias/pneumonias de aspiração3;
  • Diminuição do prazer associado –> alimentação, isolamento social –> diminuição da qualidade de vida4,5.

 

A disfagia (dificuldade em mastigar e/ou engolir) pode efetivamente ser um dos sintomas da Esclerose Múltipla.

 

Os doentes reportam, maioritariamente6:

  • Episódios de tosse ao beber/comer, ou depois de comer/beber;
  • Sensação de alimentos “presos na garganta”;
  • Necessidade de clarear a garganta (pigarrear) depois de comer/beber;
  • Saliva espessa (relacionada com menor ingestão de líquidos e possível desidratação);
  • Vómito;
  • Queda de saliva;
  • Acumulação de comida na boca.

 

Das pessoas com disfagia decorrente de Esclerose Múltipla, 60% refere que a dificuldade de deglutição que sente é um problema significativo na sua vida e que a sua gestão é difícil6. Metade destes doentes aponta sentimentos de frustração, desencorajamento e depressão associados à disfagia.

 

Estudos que implicaram a avaliação clínica e a perceção da presença de deglutição por parte dos doentes, indica que cerca de 37%-38% dos doentes com Eslcerose Múltipla apresentam disfagia 2,6. Estes doentes referem a diminuição do desejo de comer, ansiedade relativa às refeições, aumento do tempo de duração da refeição e dificuldade em selecionar alimentos fáceis de mastigar/engolir. Estas dificuldades têm implicações sociais, uma vez que a perda de interesse e prazer na alimentação, diminui a participação em atividades sociais que impliquem a partilha de momentos de refeição.

 

São também reportadas mudanças na atividade laboral, devido à disfagia6.

 

A presença de disfagia está relacionada com uma maior duração da doença, a presença de sintomas cerebelares mais graves e uma incapacidade neurológica global mais acentuada1,7.

 

Disfagia na Esclerose Múltipla: é possível reabilitar a deglutição?

Sim!

O efeito da Terapia Tradicional de Disfagia (TDT)8 foi estudado num ensaio clínico randomizado, duplamente cego, ao longo de seis semanas de tratamento, três vezes por semana, em dias não consecutivos. A amostra foi dividida em dois grupos: um foi submetido a TDT (exercícios sensoriomotores e manobras de deglutição) e outro a estratégias compensatórias (modificação de dieta e manobras posturais). Ambos os grupos demonstraram melhorias com a intervenção, sublinhando-se que os resultados do grupo submetido a TDT foram significativamente melhores.

 

O que posso esperar da Terapia da fala, quanto à reabilitação da deglutição?

É necessária uma equipa especializada que suporte as necessidades dos doentes que vivem com Esclerose Múltipla. Ao consultar um terapeuta da fala especializado, poderá solicitar:

  • Avaliação da deglutição;
  • Opinião sobre o potencial de reabilitar a deglutição;
  • Estabelecimento de um programa de exercícios com o objetivo de reabilitar a deglutição, em termos motores e sensoriais, quando indicado, ou um programa de manutenção;
  • Ensino e treino de estratégias que facilitam a deglutição e promovem a segurança das vias respiratórias: pode incluir recomendações relacionadas com a adaptação/evitamento de alimentos e bebidas, postura, diminuição de comportamentos de risco;
  • Aconselhamento sobre a gestão de saliva (sialorreia/xerostomia);
  • Aconselhamento relativamente a estratégias de adaptação da higiene oral, de acordo com a presença de disfagia e risco associado;
  • Encaminhamento para outros profissionais de saúde, quando indicada a avaliação ou acompanhamento por outras especialidades (médicas ou de neuroreabilitação).

 

Saiba mais:

Reabilitar a fala na Esclerose Múltipla

Esclerose Múltipla: o que é?

 

Referências
  1. Poorjavad, M. et al. Oropharyngeal dysphagia in multiple sclerosis. Mult. Scler. Houndmills Basingstoke Engl. 16, 362–365 (2010).
  2. Chen, P.-H., Golub, J. S., Hapner, E. R. & Johns, M. M. Prevalence of perceived dysphagia and quality-of-life impairment in a geriatric population. Dysphagia 24, 1–6 (2009).
  3. Stringer, S. Managing dysphagia in palliative care. Prof. Nurse Lond. Engl. 14, 489–492 (1999).
  4. Gustafsson, B. & Tibbling, L. Dysphagia, an unrecognized handicap. Dysphagia 6, 193–199 (1991).
  5. Ekberg, O., Hamdy, S., Woisard, V., Wuttge-Hannig, A. & Ortega, P. Social and psychological burden of dysphagia: its impact on diagnosis and treatment. Dysphagia 17, 139–146 (2002).
  6. Alali, D., Ballard, K. & Bogaardt, H. The frequency of dysphagia and its impact on adults with multiple sclerosis based on patient-reported questionnaires. Mult. Scler. Relat. Disord. 25, 227–231 (2018).
  7. Tarameshlu, M., Azimi, A. R., Ghelichi, L. & Ansari, N. N. Prevalence and predictors of dysphagia in Iranian patients with multiple sclerosis. Med. J. Islam. Repub. Iran 31, 133 (2017).
  8. Tarameshlu, M., Ghelichi, L., Azimi, A. R., Ansari, N. N. & Khatoonabadi, A. R. The effect of traditional dysphagia therapy on the swallowing function in patients with Multiple Sclerosis: A pilot double-blinded randomized controlled trial. J. Bodyw. Mov. Ther. 23, 171–176 (2019).
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