Esclerose Múltipla: altera a fala?

Já em 1877, numa descrição que viria mais tarde a corresponder a uma tríade clássica da Esclerose Múltipla, foi descrita uma alteração da fala, como “fala scaneada”1.

“nistagmus, intention tremor and scanning speech

Atualmente, as alterações da fala na Esclerose Múltipla estão bem documentadas e podem incluir todos os subsistemas da fala. A disartria (perturbação da fala) decorrente da Esclerose Múltipla consiste maioritariamente numa cominação de características espásticas e atáxicas.

 

Articulação:

  • Imprecisão articulatória (alteração da dicção);
  • Falhas articulatórias súbitas1;

 

Voz:

  • Voz áspera1 e instabilidade fonatória2,3;
  • Escape nasal1;
  • Monopitch4;

 

Prosódia (melodia da fala):

  • Dificuldade em controlar o volume da voz1,4;
  • Pausas mais frequentes1;
  • Aumento da velocidade da fala4;

 

Respiração:

  • Diminuição da pressão expiratória máxima (importante para a fala e reflexo de tosse);
  • Reduzido tempo máximo de fonação5;
  • Menor número de palavras por minuto5;
  • Diminuição da capacidade vital1 e falta de fôlego1,6;
  • Frequência respiratória aumentada1;

 

As alterações não estão relacionadas com a idade do doente, mas sim com a gravidade do envolvimento neurológico.

Alterações cognitivas, visuais, de mobilidade e fadiga são descritas como influenciadoras de uma menor capacidade de comunicação7.

Para além das alterações da fala, também alterações da linguagem podem estar presentes, nomeadamente, diminuição da fluência do discurso (p.ex. pausas, dificuldade em encontrar palavras, etc.), dificuldade na formulação de frases e alteração da compreensão6,8.

 

 

Reabilitação da fala na Esclerose Múltipla

A terapia da fala é uma área da reabilitação em franco desenvolvimento em termos científicos. Isto significa que, embora exista evidência empírica de que certas técnicas terapêuticas têm resultados positivos, nem todas as técnicas foram alvo de estudos científicos, por exemplo, estudos clínicos randomizados, que demonstrem a sua eficácia.

Assistimos atualmente a uma fase de transição do paradigma de gestão de doenças progressivas. Cada vez mais a comunidade médica reconhece a importância do encaminhamento precoce para as terapias de neurorreabilitação, como a terapia da fala, que promovem a reabilitação e/ou a manutenção das capacidades dos doentes ao longo do tempo. A situação mais comum, é, contudo, assistir-se ainda a um encaminhamento tardio ou a uma abordagem estritamente farmacológica de gestão dos sintomas, ou por falta de informação, ou devido à escassez de evidência científica alargada sobre o potencial de reabilitação em doenças progressivas.

Existe, no entanto, uma análise importante a fazer-se, neste seguimento.

Por um lado, é importante que as técnicas utilizadas num tratamento tenham sido estudadas com uma metodologia científica rigorosa que permita perceber a aplicabilidade, os riscos e os benefícios numa população. No caso da Esclerose Múltipla, existem já estudos que demonstram o potencial de diversas técnicas de reabilitação da fala. Em particular, o treino muscular de força expiratória, que melhora pressão expiratória máxima5 (importante o subsistema de respiração, que sustenta a voz; e técnicas de modificação da fala com foco no aumento da amplitude articulatória9,10, que potenciam a diminuição da velocidade da fala e a regulação da intensidade (volume) vocal.

Por outro lado, quando ainda não existe evidência quanto a uma técnica terapêutica numa população, não significa que essa técnica não tenha êxito quando aplicada num doente ou população, pode apenas significar que ainda não existe documentada evidência científica quanto aos resultados da mesma.

 

Rita Loureiro, Terapeuta da Fala

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Referências
  1. Darley Frederic L., Brown Joe R. & Goldstein Norman P. Dysarthria in Multiple Sclerosis. J. Speech Hear. Res. 15, 229–245 (1972).
  2. Hartelius Lena, Buder Eugene H. & Strand Edythe A. Long-Term Phonatory Instability in Individuals With Multiple Sclerosis. J. Speech Lang. Hear. Res. 40, 1056–1072 (1997).
  3. Bauer, V., Aleric, Z. & Jancic, E. Comparing voice self-assessment with auditory perceptual analysis in patients with multiple sclerosis. Int. Arch. Otorhinolaryngol. 19, 100–105 (2015).
  4. Rusz, J. et al. Characteristics of motor speech phenotypes in multiple sclerosis. Mult. Scler. Relat. Disord. 19, 62–69 (2018).
  5. Chiara, T., Martin, D. & Sapienza, C. Expiratory Muscle Strength Training: Speech Production Outcomes in Patients with Multiple Sclerosis. Neurorehabil. Neural Repair 21, 239–249 (2007).
  6. Gerald, F. J. F., Murdoch, B. E. & Chenery, H. J. Multiple Sclerosis: Associated Speech and Language Disorders. Aust. J. Hum. Commun. Disord. 15, 15–35 (1987).
  7. Yorkston Kathryn M., Klasner Estelle R. & Swanson Kristen M. Communication in Context: A Qualitative Study of the Experiences of Individuals With Multiple Sclerosis. Am. J. Speech Lang. Pathol. 10, 126–137 (2001).
  8. Renauld, S., Mohamed-Saïd, L. & Macoir, J. Language disorders in multiple sclerosis: A systematic review. Mult. Scler. Relat. Disord. 10, 103–111 (2016).
  9. Tjaden Kris, Lam Jennifer & Wilding Greg. Vowel Acoustics in Parkinson’s Disease and Multiple Sclerosis: Comparison of Clear, Loud, and Slow Speaking Conditions. J. Speech Lang. Hear. Res. 56, 1485–1502 (2013).
  10. Tjaden Kris, Sussman Joan E. & Wilding Gregory E. Impact of Clear, Loud, and Slow Speech on Scaled Intelligibility and Speech Severity in Parkinson’s Disease and Multiple Sclerosis. J. Speech Lang. Hear. Res. 57, 779–792 (2014).
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