FALA – o que é e quais as suas alterações?

A fala corresponde ao ato motor de falar. Quando nos referimos à fala enquanto ato motor, referimo-nos a uma atividade que requer movimento, isto é, ativação muscular de diversas estruturas, a partir do comando do cérebro.

É diferente da linguagem, que é a capacidade que nos permite utilizar as palavras, organizar frases, compreender o que é dito, e da comunicação, que é a capacidade de transmitirmos e recebermos mensagens (conseguimos comunicar sem falar, certo)?

 

 

Que estruturas intervêm na fala?

Para compreendermos melhor as estruturas que intervêm na fala, vamos decompô-la em subsistemas. A fala é constituída por quatro subsistemas que atuam sinergicamente:

Articulação – Respiração – Voz – Prosódia – Ressonância

Assim, para falarmos, utilizamos como suporte a respiração, que é o “combustível” da voz. Falamos na fase expiratória, pelo que é fundamental o funcionamento dos músculos respiratórios.

Pessoas com alterações respiratórias, referem muitas vezes que se cansam ao falar ou que não conseguem terminar uma frase num só fôlego, por exemplo.

Durante a expiração, o ar passa pela laringe (coloque a mão na sua “maçã de Adão” – esta estrutura corresponde à laringe), na qual se localizam duas pregas vocais. Quando estamos em repouso as pregas vocais estão afastadas, quando falamos, elas unem-se mediante a contração de músculos e vibram com a passagem do ar, produzindo o som base da fala: a voz.

Se com a boca fechada inspirar pelo nariz e tentar fazer voz, produzirá um som como “mmmmmmmm”, mais ainda não poderemos dizer que está a falar…

A fala é constituída por um conjunto de sons que são criados pela maior ou menor contração e constrição das estruturas da faringe, boca (lábios, língua, palato, bochechas, dentes) e do nariz. O movimento da língua e dos lábios é particularmente importante na articulação dos sons da fala. O controlo da passagem do ar pelo nariz  é feito pelo palato e permite executar sons nasais.

Falar, não é, contudo, apenas um conjunto de sons em sequência, que representam palavras. Por trás do que é dito, existem traços prosódicos, que nos permitem ajustar a forma da mensagem que queremos dizer, em função da nossa intenção. Podemos fazê-lo variando o tom de voz, o ritmo, a intensidade (volume) com que falamos, etc.

Imagine, por exemplo, a frase: “Não há pão.”

Se a nossa intenção for perguntar se há pão, demonstrando espanto, perguntaremos algo como “Não há pão?!”.

Se a intenção for apenas informativa, diremos apenas “Não há pão.”.

Se, por outro lado, estamos frustrados com o facto de já termos dito dez vezes que não há pão e continuam a pedir-nos pão, podemos perder a calma e dizer mais alto e pausadamente:”Não-há-pão!”.

Conseguiu “ouvir” as diferenças? Essas diferenças remetem para a prosódia da fala.

 

Alterações da fala: disartria e apraxia

A fala é um comportamento complexo, que requer uma ação síncrona de vários grupos musculares.

Existem dois tipos de alterações da fala no adulto: disartria e apraxia.

 

Disartria

As disartrias representam um conjunto de perturbações motoras da fala caracterizado por alterações no controlo e execução muscular do mecanismo de fala, decorrentes de uma lesão neurológica (central ou periférica)1.

As alterações da fala podem decorrer, por exemplo, de fraqueza, lentidão, incoordenação, imprecisão dos movimentos articulatórios, bem como, de uma alteração do tónus muscular2.

A disartria pode decorrer de alterações do desenvolvimento, lesões cerebrais pré-natais ou lesões adquiridas (p.ex. AVC, TCE, doenças neurológicas progressivas).

Existem várias classificações de disartria, mas, classicamente, são descritos seis tipos principais3:

  • Disartria flácida (lesão do neurónio motor inferior);
  • Disartria espástica (lesão de neurónios motores superiores corticais – gyrus pre-central e córtex pre-motor – ou dos tratos descendentes que passam na cápsula interna e no tronco cerebral);
  • Disartria atáxica (maioritariamente associada a disfunção cerebelar);
  • Disartria hipocinética (alterações do sistema extrapiramidal, substância nigra)
  • Disartria hipercinética (alterações do sistema extrapiramidal, gânglios da base);
  • Disartria mista (associada a lesões em mais do que uma área, que resulta em características de, pelo menos, duas das disartrias anteriores).

Sistema extrapiramidal: controla o tónus muscular para a manutença da postura e, quando afetado, pode provocar hipocinésia (diminuição do movimento espontâneo) ou hipercinésia (aumento de movimentos involuntários).2

 

Apraxia de fala

A apraxia de fala é uma perturbação do planeamento e programação motora da fala. Pode decorrer de lesões adquiridas (p.ex. AVC, TCE, tumores cerebrais) e de doenças progressivas (p.ex. paralisia supranuclear progressiva)16.

Nos casos de lesões adquiridas, estudos associam a presença de apraxia de fala a lesões na ínsula anterior esquerda e na área de Broca17–19.

A pessoa com apraxia pode apresentar:

  • Fala lenta;
  • Substituições e adições nos sons da fala (inconsistentes);
  • Segmentação de sílabas;
  • Aumento do número de erros com o aumento do comprimento da frase;
  • Falsos inícios/reinícios de fala;
  • A pessoa tem consciência dos erros que está a cometer.

 

O impacto das alterações da fala

A alterações da fala podem ter um impacto marcado na qualidade de vida, em particular pela estigmatização (p.ex. interpretação por parte de terceiros de que a pessoa está embriagada), alterações negativas na auto-imagem e nas relações sociais, tendência para o isolamento4.

Os potenciais efeitos decorrentes das alterações da fala devem ser tratados atempadamente, durante o período em que o indivíduo sofre da perturbação, sob risco de comprometer o seu bem-estar psicológico e social3.

 

Terapia da Fala: o que esperar?

De uma forma geral, na abordagem à pessoa com disartria é realizada:

  • Avaliação da fala, através de instrumentos standardarizados ou de informação biométrica (p.ex. análise acústica);
  • Enquadramento das alterações na história clínica e pessoal da pessoa, e delineação de um plano de reabilitação/manutenção, de acordo com o potencial de reabilitação, expectativas e ambiente;
  • Treino e ensino de exercícios, com foco na(s) área(s) alterada(s). No caso da disartria, por exemplo, diminuição da rouquidão, adequação da nasalidade; regulação da velocidade da fala, aumento da inteligibilidade; aumento do suporte e coordenação respiratória para a fala, entre outros.

 

Exemplos de abordagens terapêuticas estudadas cientificamente:

  • Normalização do tónus muscular e/ou aumento da força, precisão e coordenação do movimento5;
  • Próteses (p.ex. próteses de palato);
  • Técnicas comportamentais (o objetivo é atingir uma inteligibilidade compensada e não tanto alcançar uma fala dita normal)6 – Lee Silverman Voice Treatment7, Dysarthria Treatment Programme8; técnicas “bottom up9” e “top down”10 para apraxia da fala.
  • Utilização de biofeedback como forma de monitorizar e modificar as características da fala5;;
  • Intervenções baseadas em computador11,12
  • Implementação de Sistemas Aumentativos e Alternativos de Comunicação13,14;
  • Treino de comunicação15 (alteração do ambiente, ensino de estratégias de comunicação ao ouvinte);
  • Educação da pessoa com disartria/apraxia e dos seus parceiros comunicativos, promovendo a sua auto-estima e participação social.

 

Saiba mais sobre:

COMUNICAÇÃO, FALA e LINGUAGEM: não é tudo a mesma coisa.

Comunicar depois do AVC: afasia, disartria e apraxia

Alterações e Reabilitação da fala na Doença de Parkinson (LSVT LOUD®)

Esclerose Múltipla: altera a fala?

Referências

  1. Darley Frederic L., Aronson Arnold E. & Brown Joe R. Differential Diagnostic Patterns of Dysarthria. J. Speech Hear. Res. 12, 246–269 (1969).
  2. Palmer, R., Enderby, P. & Hawley, M. Addressing the needs of speakers with longstanding dysarthria: computerized and traditional therapy compared. Int. J. Lang. Commun. Disord. 42 Suppl 1, 61–79 (2007).
  3. Enderby, P. Disorders of communication: dysarthria. Handb. Clin. Neurol. 110, 273–281 (2013).
  4. Dickson, S., Barbour, R. S., Brady, M., Clark, A. M. & Paton, G. Patients’ experiences of disruptions associated with post-stroke dysarthria. Int. J. Lang. Commun. Disord. 43, 135–153 (2008).
  5. Pinto, S. et al. Treatments for dysarthria in Parkinson’s disease. Lancet Neurol. 3, 547–556 (2004).
  6. Deane, K. H., Whurr, R., Playford, E. D., Ben-Shlomo, Y. & Clarke, C. E. Speech and language therapy for dysarthria in Parkinson’s disease. Cochrane Database Syst. Rev. CD002812 (2001). doi:10.1002/14651858.CD002812
  7. Ramig, L. O., Sapir, S., Fox, C. & Countryman, S. Changes in vocal loudness following intensive voice treatment (LSVT) in individuals with Parkinson’s disease: a comparison with untreated patients and normal age-matched controls. Mov. Disord. Off. J. Mov. Disord. Soc. 16, 79–83 (2001).
  8. Palmer, R., Enderby, P. & Cunningham, S. P. The effect of three practice conditions on the consistency of chronic dysarthric speech. J. Med. Speech Lang. Pathol. 12, 183–188 (2004).
  9. Ballard, K. J. et al. Treatment for Acquired Apraxia of Speech: A Systematic Review of Intervention Research Between 2004 and 2012. Am. J. Speech Lang. Pathol. 24, 316–337 (2015).
  10. Brendel, B. & Ziegler, W. Effectiveness of metrical pacing in the treatment of apraxia of speech: Aphasiology: Vol 22, No 1. Aphasiology 1, 77–102 (2008).
  11. Hird, K. & Hennessey, N. W. Facilitating use of speech recognition software for people with disabilities: a comparison of three treatments. Clin. Linguist. Phon. 21, 211–226 (2007).
  12. Varley, R. et al. Self-Administered Computer Therapy for Apraxia of Speech: Two-Period Randomized Control Trial With Crossover. Stroke 47, 822–828 (2016).
  13. Binger, C. & Light, J. The morphology and syntax of individuals who use AAC: research review and implications for effective practice. Augment. Altern. Commun. Baltim. Md 1985 24, 123–138 (2008).
  14. Schlosser, R. Roles of Speech Output in Augmentative and Alternative Communication: Narrative Review. Augment. Altern. Commun. Baltim. Md 1985 19, 5–27 (2003).
  15. Sellars, C., Hughes, T. & Langhorne, P. Speech and language therapy for dysarthria due to non-progressive brain damage. Cochrane Database Syst. Rev. CD002088 (2005). doi:10.1002/14651858.CD002088.pub2
  16. Duffy, J. R. & Josephs, K. A. The Diagnosis and Understanding of Apraxia of Speech: Why Including Neurodegenerative Etiologies May Be Important. J. Speech Lang. Hear. Res. JSLHR 55, S1518–S1522 (2012).
  17. Dronkers, N. F. A new brain region for coordinating speech articulation. Nature 384, 159–161 (1996).
  18. Hillis, A. E. et al. Re-examining the brain regions crucial for orchestrating speech articulation. Brain J. Neurol. 127, 1479–1487 (2004).
  19. Trupe, L. A. et al. Chronic Apraxia of Speech and “Broca’s Area”. Stroke J. Cereb. Circ. 44, 740–744 (2013).

 

 

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