Engasgo-me muito quando bebo água…
Quando como pão fico com tosse…
A comida fica presa na garganta, não vai para baixo!

O termo disfagia refere-se a uma perturbação do mecanismo de deglutição.
Em termos muito simples, a deglutição corresponde ao acto de engolir.

Trata-se de uma ação semiautomática, que inclui, não só a preparação do alimento (mastigação), mas também o seu transporte para da cavidade oral para a faringeesófago e, finalmente, para o estômago.

Embora seja um ato rápido, é possível dividir a deglutição em quatro fases:

  • Fase preparatória oral
  • Fase oral
  • Fase faríngea
  • Fase esofágica

Uma alteração em qualquer uma destas fases da deglutição pode implicar consequências graves na saúde física e psicológica da pessoa, que vão desde

  • infecções respiratórias
  • desidratação
  • subnutrição
  • depressão e isolamento social.

A disfagia ser secundária a várias doenças, sendo o A.V.C. uma das principais causas em todo o mundo, na população adulta. O traumatismo cranioencefálico, a Doença de Parkinson, a Esclerose Lateral Amiotrófica, a Esclerose Múltipla, Doença de Huntington e a Distrofia Muscular, são outros exemplos de doenças neurológicas que podem provocar disfagia.

A disfagia pode, contudo, ocorrer também devido a alterações estruturais – disfagias mecânicas -, como a fenda do palatotumores da cavidade orallaringe e esófago, traumas, entre outros.

As pessoas com disfagia podem ser totalmente incapazes de deglutir, ou apresentar dificuldades na deglutição de líquidosalimentos ou saliva. O impacto dessas dificuldades é variável. Em muitos casos de disfagia, torna-se difícil obter os elementos essenciais para nutrir e hidratar o organismo, o que debilita a condição geral de saúde.

A acrescentar, há que considerar a possibilidade de ocorrer aspiração pulmonar, ou seja de o alimento/bebida ser conduzido para os pulmões, em vez de seguir, como seria de esperar, para o estômago. Como consequência da aspiração pulmonar ocorrem infecções respiratórias que podem evoluir para pneumonias de aspiração, e que, aliadas a a um quadro de subnutrição e desidratação, se revelam difíceis de combater e podem ser fatais.

 

 

A avaliação da deglutição e a sua reabilitação é realizada pelo terapeuta da fala.

 

Durante a avaliação do terapeuta da fala, é recolhida e analisada a história clínica, são avaliadas as estruturas (força, mobilidade, velocidade, sensibilidade…) e o mec

anismo de deglutição. Em muito casos, é recomendável a realização de uma avaliação instrumental, isto é, de um exame que permite observar “o interior” do mecanismo de deglutição. Os exames de referência para avaliação da deglutição são a videofluoroscopia da deglutição e a videoendoscopia da deglutição.

 

Sinais e sintomas de que a deglutição está alterada

 

  • Tosse ou necessidade de pigarrear para limpar a garganta depois de deglutir;
  • Voz alterada/molhada depois de deglutir;
  • Necessidade de engolir várias vezes para o alimento/bebida descer pela garganta;
  • Queda de alimento ou líquidos pela boca;
  • Engasgamentos frequente;
  • Dificuldade em iniciar a deglutição (demorar muito tempo para engolir, dar o comando para engolir e a deglutição não se iniciar imediatamente)
  • Regurgitação nasal (saída de alimentos pelo nariz)
  • Dificuldades na mastigação e no controlo dos alimentos/bebidas na boca;
  • Acumulação de restos de alimentos na boca depois de engolir, em particular entre os dentes e as bochechas, no palato (“céu da boca”) ou debaixo da língua;
  • Perda de peso involuntária;
  • Desidratação, muitas vezes conducente a infeções urinárias;
  • Febre depois das refeições;
  • Sensação de falta de força na língua;
  • Alterações da sensibilidade na língua, lábios e bochechas;
  • História de infecções pulmonares;
  • Dificuldade em tomar comprimidos.

 

A deglutição pode ser reabilitada?

 

Depende do caso, mas na maioria dos casos sim, é possível reabilitar a deglutição. Mesmo nas doenças neurodegenerativas, é quase sempre possível obter ganhos substanciais, com impacto no dia-a-dia da pessoa (e da família!).

A reabilitação da deglutição inclui exercícios e técnicas, baseados nos princípios da neuroplasticidade e do exercício, que visam a normalização do processo fisiológico da deglutição, no sentido de garantir a nutrição/hidratação adequada e a proteção das vias respiratórias, evitando a aspiração pulmonar (entrada de alimentos, líquidos ou saliva para os pulmões).

Pode ainda ser realizada uma intervenção compensatória, isto é, que visa garantir a segurança da deglutição, por exemplo, através d:

  • adaptação da dieta, isto é, definir quais as consistências em que os alimentos e bebidas podem ser ingeridos com menor risco de aspiração pulmonar;
  • utilização de manobras posturais,
  • ensino de outras estratégias.

Os programas de deglutição devem ser individualizados e implementados por terapeutas da fala com formação e experiência na área.

 

Rita Loureiro, terapeuta da fala 

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