A afasia é uma perturbação da linguagem, decorrente de uma lesão cerebral adquirida, que tem implicações na expressão e/ou compreensão, quer na vertente falada, quer na escrita. Isto é, a afasia faz com que a pessoa possa ter dificuldade em compreender, falar, ler (alexia) ou escrever (agrafia).

A afasia pode ser causada por um Acidente Vascular Cerebral (AVC), tumores, traumatismos, entre outros. Esta perturbação está associada a uma lesão no hemisfério dominante da linguagem, na maior parte das pessoas, o hemisfério esquerdo.

Dependendo da causa, muitas vezes esta perturbação da linguagem é acompanhada de alterações motoras e/ou sensoriais, como a hemiparésia dos membros, parésia facial e a hemianopsia (perda parcial ou completa da visão numa das metades do campo visual) e a disfagia (alteração da deglutição). Podem ainda observar-se outras alterações com implicações na comunicação, como disartria ou apraxia de fala.

A afasia pode ser classificada em quadros específicos, de acordo com as capacidades e dificuldades de linguagem observadas:

  • Afasia global;
  • Afasia de condução;
  • Afasia sensorial;
  • Afasia de Wernicke;
  • Afasia transcortical motora;
  • Afasia transcortical sensorial;
  • Afasia anómica.

Geralmente, os critérios de classificação das afasias baseiam-se na fluência do discurso e nas capacidades de compreensãoexpressão e repetição. Cabe ao terapeuta da fala realizar uma avaliação que defina não só o tipo de afasia do indivíduos, mas, acima de tudo, quais as capacidades, fragilidades e necessidades da pessoa com afasia e da família.

Que alterações pode a pessoa sentir?

EXPRESSÃO ORAL (através da fala)

  • Dizer a palavra errada, mesmo sabendo que não é essa a palavra que quer dizer. Por exemplo, dizer “gato” em vez de “cão”;
  • Ter a sensação de ter a palavra na “ponta da língua”, mas não consegue pensar no nome da palavra que quer dizer;
  • Trocar sons nas palavras;
  • Dizer palavras que não existem;
  • Dificuldade em estruturar as frases, ter tendência para simplificar o discurso ou dizer frases que não fazem sentido.

COMPREENSÃO (da fala)

  • Dificuldade em compreender o que os outros dizer, especialmente quando as pessoas falam depressa, dizem muitas coisas de uma vez ou quando há muito ruído de fundo;
  • Dificuldade em compreender piadas.

LEITURA E ESCRITA

  • Dificuldade em ler livros, menus do computador/telemóvel/multibanco, formulários, etc.;
  • Dificuldade em soletrar palavras e juntar letras para escrever palavras e frases;
  • Dificuldade em usar números, por exemplo para fazer cálculos, dizer as horas, contar dinheiro, etc.

Pessoas que falem mais do que uma língua podem ter mais dificuldade em falar/compreender uma determinada língua em comparação com outra.

 

Afasia: que consequências?

As consequências da afasia estendem-se, não só à pessoa com afasia, mas também à família e amigos. As dificuldades de comunicação sentidas trazem, muitas vezes, alterações e frustrações que se revelam um desafio para a pessoa para todos os que lidam com ela.

Neste sentido, o terapeuta intervirá directamente com a pessoa com afasia no sentido de (re)habilitar a sua comunicaçãomas também com a família e amigos. A abordagem à família é feita através de aconselhamento, da explicação das dificuldades e da partilha e treino de estratégias de comunicação. Muitas famílias procuram o terapeuta da fala na esperança de que a recuperação total da fala seja possível. Embora não seja impossível, a recuperação total da afasia depende de muitos factores e, ainda que em muitos casos se verifiquem melhoras significativas, é possível que se mantenham sequelas permanentes.

Lidar com as sequelas da afasia passa por compreender que, mais importante do que falar, é comunicar. Isto significa que o fundamental é dar ferramentas à pessoa para que ela consiga comunicar. Isto pode significar utilizar a escrita, desenhos, gestos, imagens, etc, para comunicar a mensagem que pretende. Para tal, o trabalho com as famílias é muito importante, no sentido de diminuir comportamentos de frustração, ajudar a reconhecer padrões de comportamento que impedem ou facilitam a comunicação e modificar esses padrões.

A afasia pode fazer com que a pessoa tenha de alterar funções no trabalho, utilizar equipamento especial para comunicar ou mudar de trabalho.

 

Que opções de tratamento?

Existem várias opções de tratamento e técnicas, dependendo das dificuldades e do tipo de(s) objetivo(s) que se pretende alcançar.

A intervenção com o terapeuta da fala pode ser individual, com o acompanhamento de um familiar/amigo ou em grupo (grupos de intervenção ou grupos de apoio).

Em casos específicos, pode ser útil aprender a utilizar formas alternativas e aumentantiva de comunicação – gestos, escrita, desenho, apontar imagens/letras ou utilizar um computador com um programa de apoio à comunicação.

 

Afasia progressiva primária: um caso especial de afasia.

A afasia progressiva primária (APP) é caracterizada por uma perda gradual da capacidade de linguagem, mantendo relativamente intactas outras funções cognitivas. Ao contrário de outras formas de afasia, a APP ocorre devido à deterioração focal da área cerebral da linguagem e não se deve a neoplasias, AVC, doenças infecciosas ou metabólicas (Mesulam, 2001; Rogers, 2004).

O tipo de padrão de alteração da linguagem pode diferir de pessoa para pessoa. As primeiras manifestações de uma APP são, portanto, variáveis e podem ser, dificuldade em encontrar palavras, dizer frases agramaticais (ex. dizer a ordem das palavras de forma errada), dificuldade em compreender, fazer frases com menos palavras e com menos esforço, entre outros.

Atualmente, distinguem-se três tipos de Afasia Progressiva Primária:

  • APP agramática;
  • APP semântica;
  • APP logopénica.

Outras alterações, como disartria e apraxia podem vir a estar presentes com a progressão da APP, bem como alterações cognitivas, como defeitos de memória, processamento visual e alterações de personalidade.

A APP trata-se de uma condição em que a perda de competências de linguagem (falar, escrever, ler, compreender) vai ser progressiva e, ao contrário da afasia que resulta, por exemplo de um AVC, em que existe possibilidade de restaurar competências, este não é o caso na afasia progressiva primária. As pessoas com APP podem, contudo, beneficiar do acompanhamento em terapia da fala, no sentido de potenciar a utilização de estratégias de comunicação, tal como os familiares.

 

Rita Loureiro, terapeuta da fala

 

Leia também (relacionado):

COMUNICAÇÃO, FALA E LINGUAGEM: NÃO É TUDO A MESMA COISA.

Fontes

Brown, J., & Thiessen, A. (2018). Using Images With Individuals With Aphasia: Current Research and Clinical Trends. American Journal of Speech-Language Pathology, 27(1S), 504–515. https://doi.org/10.1044/2017_AJSLP-16-0190

Evans, W. S., Quimby, M., Dickey, M. W., & Dickerson, B. C. (2016). Relearning and Retaining Personally-Relevant Words using Computer-Based Flashcard Software in Primary Progressive Aphasia. Frontiers in Human Neuroscience, 10. https://doi.org/10.3389/fnhum.2016.00561

Fridriksson, J., Baker, J. M., Whiteside, J., Eoute, D., Moser, D., Vesselinov, R., & Rorden, C. (2009). Treating visual speech perception to improve speech production in nonfluent aphasia. Stroke, 40(3), 853–858. https://doi.org/10.1161/STROKEAHA.108.532499

Knibb, J. A., & Hodges, J. R. (2005). Semantic dementia and primary progressive aphasia: a problem of categorization? Alzheimer Disease and Associated Disorders, 19 Suppl 1, S7-14.

Mesulam, M. M. (2001). Primary progressive aphasia. Annals of Neurology, 49(4), 425–432.

Rohde, A., Worrall, L., Godecke, E., O’Halloran, R., Farrell, A., & Massey, M. (2018). Diagnosis of aphasia in stroke populations: A systematic review of language tests. PloS One, 13(3), e0194143. https://doi.org/10.1371/journal.pone.0194143

(Brown & Thiessen, 2018; Evans, Quimby, Dickey, & Dickerson, 2016; Fridriksson et al., 2009; Rohde et al., 2018)

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