TCE: DIFICULDADE EM FALAR E COMUNICAR

 

A dificuldade de comunicação após um Traumatismo Cranioencefálico pode ser das que têm um impacto mais evidente no quotidiano.

Ainda assim, a não ser que a pessoa beneficie de reabilitação num local que privilegie um modelo de intervenção interdisciplinar e neurobiopsicossocial, do qual faz parte um terapeuta da fala, muitas vezes este profissional não é procurado, essencialmente, por desconhecimento do seu papel na reabilitação do TCE.

 

Terapia da fala no TCE: que áreas são avaliadas?

 

A avaliação do terapeuta da fala compreende uma análise da história clínica, uma entrevista (anamnese), avaliação com ferramentas validadas para o efeito e recolha de outras medidas individualizadas1.

A duração desta avaliação é variável, mas tende a prolongar-se até cerca de duas horas, ou mais.

 

  • Funcionamento auditivo: pode ocorrer, por exemplo, hipersensibilidade ao ruído, mesmo na ausência de lesão temporal ou do ouvido, aumentando os níveis de conforto, fadiga, e comunicação2.
  • Fluência verbal: a capacidade de encontrar palavras específicas na conversação é comum em pessoas que sofreram TCE3. A avaliação desta capacidade é testada em várias circunstâncias e contextos.
  • Sucesso conversacional;
  • Leitura;
  • Escrita;
  • Comunicação em contacto social: estão descritas alterações da pragmática em adultos com TCE, que provocam um impacto na participação social e podem conduzir à depressão e isolamento4,5.

 

No contexto de reabilitação do TCE, o terapeuta da fala pode avaliar componentes cognitivo-linguísticas, com uma sobreposição mínima relativamente às medidas tradicionalmente utilizadas pela neuropsicologia1. Esta análise é fundamental, uma vez que a linguagem e a comunicação estão intimamente relacionadas e são interdependentes de funções cognitivas, como:

 

  • Capacidade de atenção e velocidade de processamento;
  • Memória de trabalho;
  • Memória verbal;
  • Funções executivas: alterações incluem defeitos no planeamento, organização, regulação emocional e tomada de decisões6.

 

Como é feita a intervenção?

Os modelos de intervenção são variáveis entre instituições e profissionais. Partilho, em seguida, o modelo que defendo:

  • Entrevista motivacional, como forma de facilitar a motivação interna da pessoa, na qual é feita a identificação conjunta das barreiras para que seja fomentada a alteração de comportamentos de saúde que facilitem a reabilitação. Em vez de a pessoa ser informada das alterações específicas que deve fazer, a identificação de barreiras e modificações é feita em conjunto com o terapeuta.
  • Sessões individuais de terapia da fala: são realizados exercícios de intervenção altamente variáveis, em função das necessidades e funcionalidade da pessoa, embora todos incluam um componente em comum: o foco na educação sobre a interrelação entre as funções cognitivo-linguísticas e os fatores físicos e emocionais, com o objetivo de recuperar autonomia.
  • Sessões de grupo/sociais: embora não sejam possíveis de se realizar em todos os contextos, constituem uma excelente oportunidade para trabalhar competências comunicativas em público. O mesmo pode ser realizado em contextos sociais (p.ex. ir a um café, ir às compras, etc.), quando possível.

 

Saiba mais:

Dificuldade em engolir no TCE

 

Rita Loureiro, terapeuta da fala

NEUROFALA | terapia da fala no adulto com patologia neurológica

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Referências
  1. Hardin, K. Y. & Kelly, J. P. The Role of Speech-Language Pathology in an Interdisciplinary Care Model for Persistent Symptomatology of Mild Traumatic Brain Injury. Semin. Speech Lang. 40, 65–78 (2019).
  2. Callahan, M. L. et al. Sensory sensitivity in operation enduring freedom/operation Iraqi freedom veterans with and without blast exposure and mild traumatic brain injury. Appl. Neuropsychol. Adult 25, 126–136 (2018).
  3. Barrow, I. M. et al. Can within-category naming identify subtle cognitive deficits in the mild traumatic brain-injured patient? J. Trauma 54, 888–895; discussion 895-897 (2003).
  4. Schneider Edna & Van Auken Sarah. Bridging the Gap: Pragmatic Language Group Approach for Cognitive-Communication Deficits Postconcussion. Perspect. ASHA Spec. Interest Groups 3, 31–43 (2018).
  5. Sveen, U., Ostensjo, S., Laxe, S. & Soberg, H. L. Problems in functioning after a mild traumatic brain injury within the ICF framework: the patient perspective using focus groups. Disabil. Rehabil. 35, 749–757 (2013).
  6. Erez, A. B.-H., Rothschild, E., Katz, N., Tuchner, M. & Hartman-Maeir, A. Executive functioning, awareness, and participation in daily life after mild traumatic brain injury: a preliminary study. Am. J. Occup. Ther. Off. Publ. Am. Occup. Ther. Assoc. 63, 634–640 (2009).
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